Chuva de Época

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CHUVA DE ÉPOCA | ÍNDICE

CHUVA DE ÉPOCA | ÍNDICE

NADA NUNCA DE NINGUÉM 

Individualidade
Um lume escuro interior
Depósitos
Em corpórea presença
Condenação
Não procuramos o mesmo
Toca em mim
Mancha
Fragmentos de um discurso amoroso
O rosto aquele rosto
Yo simplemente te vi
Adeus
Ginete!
Actuo na comoção do espaço
Onda
O rio escavaca a sorte
Estes dias que nos separam
A casa onde nos abrigamos
O espaço incontido do presente
Voz desnivelada
Mastigação
Rapto
Um rio no meu cérebro
A morte precursora ou silenciosa imolação
Volveste
Figuras indigitadas
Ulisses na ilha de Circe
Teresa d’Ávila
Quixote
Senhora dos passantes
Carrego o quadro
Ausência
Amizade I
Amizade II
Mercador ou traficante
Face oculta
Densidade espectral
Emoções
Saída
Inscrição
O fraco momento da vida

 

O RISO DOS POETAS 

O riso dos poetas
Farsantes
Sente o tanger quente dos humanos
Um mínimo impulso
Voz reflexiva
Os animais-textos
As palavras
Acontece
O poeta
Uma valsa para Antília
Da reticência ao facto
Segredo aberto
Involuntária ficção
Entre paredes
Recitamos
A escrita
Voz percutora

 

CHUVA DE ÉPOCA | SOBRE A OBRA

Chuva de Época é o primeiro livro de poemas de José Maria de Aguiar Carreiro. A epígrafe que abre o livro, um verso de Jorge Luis Borges – “Somos a água, e não o diamante duro, / a que se perde, não a que repousa” –, coloca-nos de imediato perante um horizonte de leitura que o que se segue há de confirmar. Constituído de duas partes, “Nada Nunca de Ninguém” e “O Riso dos Poetas”, o presente poemário faz da(s) continuidade(s), melhor, da consciência dela(s), o chão do seu dizer ou, como se pode ler no poema “Estes dias que nos Separam”: “farei do gesto uma cópia / infinita dos gestos dos gestos”.

Da negatividade ontológica à negatividade temporal e psicológica, José Maria de Aguiar Carreiro procura, nos poemas que estão dentro, a completude impossível para uma palavra poética a que os advérbios (“Nada Nunca…”), que estão acima, nos sobreavisam para a ausência dela. A epígrafe reconfirma-se: não há presenças a que o dizer poético se possa juntar, nem continuidades de que a poesia seja o seu assomo de felicidade. Face à ausência – de si, dos outros e de um presente que nunca é –, que resta ao poeta senão a reafirmação dos advérbios? Chuva de Época instala-se no interior dessas ausências, para daí dizer o que dizer não se pode. O riso é o sinal desse impoder, e disso o poeta nos faz seus cúmplices.

Fernando Martinho Guimarães (Ponta Delgada, 2005)

 

(…) poética (…) elíptica, tan entregue á gramática do fragmento. Experimentei gratos reenvíos a outros lugares e textos. Por suposto ao Barthes de Fragments, un libro átopos por seguirlle o xogo. (…) Tamén Resnais, o Marienbad, non sei ben por que motivo, as poéticas todas ditas “do espazo”. Chuva de Época semella ser un libro francés aos meus ollos, cunha decidida tematización da espacialidade, da habitabilidade, dos ocos e os baleiros revisitados ou presaxiados, dos segmentos de vida formulada. Mediterráneo acaso malia o lugar onde foi pensado, grego na semántica como o foron algúns dos arcaicos, entregando case todo ao non dito ou só suxerido, e sendo á vez, en simultaneidade inesquivábel, metadiscursivos, reiterados e autorreferentes na textualidade que se demora como coordenadas non só da escrita senón tamén do experimentado, da vida en suma e dos seus azares obxectivos.

 Arturo Casas (Santiago de Compostela, 2006)

 

 

CHUVA DE ÉPOCA | POEMAS

ESTES DIAS QUE NOS SEPARAM

Estes dias que nos separam
a presença mesmo que informe
posso desenhar-te
aureolar-te com meus gestos
ler-te em mim.

Os movimentos que faço
lentamente te procriam
e radicam no meu corpo.

Farei do gesto uma cópia
infinita dos gestos dos gestos.

*

A CASA ONDE NOS ABRIGAMOS

A casa onde nos abrigamos, continente repovoado,
lança-nos para lá do limiar da entrada.
O sono suspende, pendular, o vaguear dos sentidos.
Resta uma preocupação desmedida de pertença:
o frio junta as paredes contidas de nossos corpos
e atravessa a casa, abrigo noturno,
contentor de desvelos inúteis.

A casa esvazia-se:
tenho nítida remanescente
a imagem das três paredes
o desconforto do chão
o vento fresco da noite
o som das ondas.

A casa está perdida
o rosto iluminado retém ainda algo de si
sulco no tempo o corpo
o desenho do corpo
o árbitro.

*

VOZ REFLEXIVA

(Fátima Miranda, Concierto en Canto
Madrid, Hyades Arts, 1994.)

Inicialmente concertam a voz
junto aos abismos: penhascos
as mulheres preludiam à beira da rocha
e o som fica para trás
para a aldeia dos vivos
carpem quando liminarmente se deixam tocar
e como a voz ecoa elas saem de si
a respiração é orgânica instalada
a voz sólida poetada
trabalham as cordas vocais
com exercícios vários sempre apreciados
lentamente emudecem
por momentos a população quieta-se
e os aldeões assentem sem aplauso
perante a passagem da voz por caminhos milenares

a respiração é orgânica instalada
a voz sólida poetada
conduz a um só matiz
que se acerca aloja e distrai com maestria
evolui para o mesmo, a raiz, essa raiz antiga.

Como as carpideiras as mulheres alimentam
a qualidade da verdade
habitam os potros com sua voz
devolvem a memória à terra velha e larga
até tudo se integrar na linguagem de todos
e de um só
no centro do corpo, coral, sonoro
muito oral.

 

 

CHUVA DE ÉPOCA | FICHA TÉCNICA

Título: Chuva de Época
Autor: José Maria de Aguiar Carreiro
Ponta Delgada, novembro de 2005
Capa: Francisco Oliveira e Silva
Depósito legal nº 234188/05
I.S.B.N. nº 989-20-0047-1
Execução gráfica: Nova Gráfica
Apoio: Direção Regional da Cultura (Açores)

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